Se a Amazônia fosse criada?

Durante o mês passado, eu estava lendo um livro com um aluno da Nationalities Service Center em Philadelphia.  A ideia era ajudar ela desenvolver um pouco melhor os argumentos dela e fortalecer as suas habilidades críticas sobre textos escritos.  O objetivo era preparar ela para o seu ingresso em um programa de mestrado nos EUA.

Escolhi este livro porque eu o achei interessante.  Eu conhecia bem pouco sobre os índios dos EUA.  Além do mais, depois de passar bastante tempo na Argentina, entre indas e vindas,  eu foi exposto à historia da Campanha ao Deserto, que foi a exterminação dos tribos morando na Patagonia.   No entanto, os países como os EUA e Argentina são exceções nas Américas.  Nos outros casos, as grandes populações indígenas foram incorporadas dentro dos povos, pelo menos da forma genética.

Então, esse capítulo fala sobre os exploradores Gonzalo Pizzaro, Francisco de Orellana e Gaspar de Carvajal.  Gonzalo Pizzaro era o irmão de Francisco Pizarro, entãogovernador do Perú.  Gonzalo Pizzaro foi mandado para descobrir se havia uma saída ao oceano Atlântico através do rio Amazonas.  Orellana foi separado de Gonzalo Pizzaro durante os íncios da viagem e decidiu continuar a explorar o rio sem seu comandante.  Gaspar de Carvajal acompanhou Orellana e foi Carvajal quem documentou os detalhes da viagem num caderno.  Os documentos do Carvajal não foram impressos até o ano de 1894, em efeito, 353 anos depois do ínicio dessa viagem. 

O autor de 1491 explica que haviam dois motivos para não publicar as observações de Carvajal, uma deles sendo que Orellana (e Carvajal) não conquistaram nada.  Nessa época, somente importavam as conquistas espanholas; as conquistas que ganharam prata e ouro para a coroa espanhola.  A segunda razão foi que muitos pensaram que Carvajal estava exagerando sobre o que ele viu.  Ele anotou que a região não era vazia.  Muito pelo contrário, os lados do rio eram altamente populados sem quase nenhum espaço entre as aldeias indígenas.  Em seus documentos, ele escreveu em muito detalhe sobre o desenvolvimento dessas populações (p. 321-330).  Se Carvajal estava contando a verdade, ele pode ter visto uma Amazônia muito diferente daquela oferecida pelos ambientalistas de hoje.  Será que a visão da Amazônia como um lugar “não tocado” pela mão humana está simplesmente errada? 

Os espanhóis também tinham muitos motivos para subestimar exatamente quantos índios moravam nos continentes americanos e para não divulgar quaisquer relatórios que dizeram o contrário.  Um continente vazio justificou a expansão das populações europeias à essas terras.  Se houvessem civilizações muito sofisticadas já presentes, a conquista para adquirir riqueza seria uma invasão e não mais fazer bom uso de terras vazias como afirmado pelos ingleses.  Depois de um tempo, a diseminação das doenças pela população índigena efeitivamente se reduziu cada vez sua presença.  Os exploradores que vieram depois veriam um mundo americano muito distinto, e suas histórias se tornaram a verdade.

No século vinte, houveram duas pesquisadoras que tinham opinões radicalmente distintas sobre “a influência humana” na região amazônica.  Betty Meggers discursou que existia um lei natural que ditou os limites dos avanços de qualquer cultura.  Para ela, uma civilização na Amazônia nunca poderia ter exisitido.  Qualquer grupo que avançou bastante para formar sociedades agropecuarias teria sido reduzido até o seu estado anterior por uma catastrofe natural.  O solo simplesmente não tinha como sustentar uma sociedade sofisticada e as secas ou chuvas fortes teriam forçado essas sociedades  à desintegração, “correndo à selva” de novo.

A civilização de Marajó foi um exemplo mais concreto para a defesa do argumento de Meggers.  Houve uma vez uma civilização avançada nessa ilha na boca do Amazonas (331). Para ela, essa civilização veio de outro lugar e, após de chegar à ilha, rapidamente começou a deteriorar.  A sociedade não pôde se sustentar num meio-ambiente tão hostil à agricultura.  As sociedades amazônicas sempre estariam destinadas a utilizar as técnicas de “slash-and-burn” para cultivar uma seção de terra por alguns anos antes da volta da selva.  Não adiantavam outros métodos que utilizavam a terra de forma mais intensa e por um período mais extenso.

As ideias de Meggers culminaram na obra nomeada Counterfeit Paradise.  Essa obra inspirou o movimento “Dia da Terra” (ou “Earth Day” em inglês) para encorajar pessoas a proteger o planeta terra.  O resultado deste livro  foi uma associação entre preservar o planeta e não influenciá-lo de nenhuma maneira. 

Para Anna Roosevelt, o melhor jeito de cuidar da terra era influenciá-la como as tribos amazônicas fizeram.  Ao contrário do que argumenta Meggers, Roosevelt  pensava que os Marajós teriam melhorado a selva para acomodar as suas necessidades e a civilização não era apenas uma sociedade sofisticada e deslocada, que começou a se desintegrar.  Os Marajós não tinham monumentos grandes porque foi difícil forçar trabalhadores a dedicar muito tempo a estes projetos.  Ao contrário do que acontecia em outros lugares, trabalhadores puderam escapar facilmente à selva ao redor da civilização.  Então, a civilização Marajó conseguia, sim, habitar este terreno e sua queda não ocorreu por ser uma civilização agropecuária simplesmente incapaz de se manter nesta região.

Além do mais, a situacão atual dos índios para muitos acadêmicos, é o resultado da chegada dos europeus. Belée tem uma teoria de “regressão agrícola” (agricultural regression) que diz que os índios abandonaram suas cidades porque lá eles eram facilmente capturados pelos europeus e vendidos para a escravidão.  Os índios eram capazes de sobreviver pois eles sabiam como controlar o meio-ambiente em que moravam.  Um estudo das selvas onde moram as tribos Ka’apor mostrou que até metade das espécies das plantas “significantes” eram para o uso de consumo humano.  Normalmente, somente até 20% das espécies em selva virgem são úteis para o consumo humano.

Então tanto Belée como Erickson, da universidade da Pensilvânia, pensaram que é possível que toda a selva pode ter sido criada pelos índios.  Mas o que eles divulgaram foi muito mais conversador, apenas dizendo que uma parte dessas selvas foram cultivadas e criadas cuidadosamente pelos índios do passado.

Embora seja curioso que as variedades de plantas em áreas cuidadas pelos índios têm uma maior concentração de plantas úteis para o consumo humano, isto em si só não demostra que os índios manipularam o seu meio-ambiente para se beneficiar.  Os dados da terra apontam de forma muito mais contundente para a existência de sociedades altamente sofisticadas na Amazônia que teriam impactado profundamente o seu meio-ambiente. 

Há pouco tempo, alguns pesquisadores descobriram que a terra na Amazônia não é completamente vermelha e carente de nutrientes.  Há áreas de terra preta e de terra mulata, que são muito mais ricas, entrelaçadas entre as zonas de terra vermelha.  A terra preta tem traços de cerâmica e a terra mulata também, mas em um grau menor.  O solo preto tem até 64 vezes mais carvão do que a terra vermelha.  Esse carvão oxida lentamente para que os nutrientes possam se fixar e enriquecer o solo.  Em combinação com os ossos e microorganismos, essas áreas de terra preta e mulata têm bastantes nutrientes para cultivar os alimentos específicos para os grupos índigenos.

A criação de terra preta pode ser o resultado de um processo de “corte e carboniza” (“slash-and-char”) em vez de “corte e queima” (“slash-and-burn”).  “Slash-and-char” é uma queimadura incompleta e fresca, que preserva bastante da matéria vegetal, que voltará à terra (em vez de se perder no ar).

Wesceslau Teixiera e Wolfand Zech da Embrapa fizeram um experimento próximo à cidade de Manuas para ver se o carvão e fertilizante pudessem ter melhorado a qualidade da terra vermelha.  Os resultados deles foram positivos, em poucos anos esse combinação rendeu 880% mais do que o grupo de controle (357).  Ainda mais, o grupo experimento nem sequer utilizou microorganismos para melhorar o solo como se acredita que os índios teriam usado.

Em suma, as consequências de não pesquisar melhor sobre o papel humano sobre a natureza podem ser grandes.  É cada vez mais fácil assumir que o homem não deve influenciar o seu ambiente quando nós vivemos vidas cada vez mais sintéticas.  Essa perspectiva tomada ao extremo pode estar ignorando reformas enormes que nossos antepassados fizeram para “cuidar” do seu meio-ambiente, em vez de deixá-lo crescer sem nenhuma influência.  Pode ser que as jóias de natureza que nós vemos hoje sejam, de fato, os restos de um projeto do passado.

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2 responses to “Se a Amazônia fosse criada?

  1. Muito bom o texto, eu desconhecia essas teorias.

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